{"id":927,"date":"2020-09-23T19:08:30","date_gmt":"2020-09-23T19:08:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/?page_id=927"},"modified":"2020-09-23T19:12:13","modified_gmt":"2020-09-23T19:12:13","slug":"professora-carla-rosa","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/professora-carla-rosa\/","title":{"rendered":"Professora Carla Rosa"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista pelo Martim Carvalho, pela Catarina Lemos e pelo Lu\u00eds Afonseca \u00e0 Professora Carla Rosa<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Martim Carvalho (MC): <\/strong>Antes de mais, queremos agradecer o facto de a professora ter aceite esta proposta, disponibilizado este bocadinho de tempo para estar connosco. Comecemos ent\u00e3o por falar um pouco de si e do seu percurso acad\u00e9mico, se puder ser.<\/em><\/p>\n<p><strong>Carla Carmelo Rosa (CCR):<\/strong> Por onde querem que comece, mesmo de pequenina? Digo isto porque&#8230; Como \u00e9 que algu\u00e9m se v\u00ea de repente num curso de F\u00edsica, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Penso que temos compet\u00eancias espec\u00edficas que vamos desenvolvendo enquanto crian\u00e7as e adolescentes, sendo que quando cheguei ao 12\u00ba ano era claro que queria fazer um curso que tivesse algo de aplicado.<\/p>\n<p>Provavelmente num percurso muito semelhante ao vosso, tive uma adolesc\u00eancia onde li livros de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, como os de Carl Sagan e Hubert Reeves, da Cole\u00e7\u00e3o Ci\u00eancia Aberta da Editora Gradiva, que foram muito importantes na divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia nos anos 80. Depois h\u00e1 todo um contexto que nos leva a procurar um curso destes. Por um lado, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com inspira\u00e7\u00e3o em s\u00e9ries televisivas, como a <em>Espa\u00e7o: 1999<\/em> &#8211; que se calhar n\u00e3o vos diz muito -, ou a <em>Battlestar Galactica<\/em>, fant\u00e1stica na sua s\u00e9rie inaugural. Por outro, a curiosidade intr\u00ednseca com a natureza das coisas ou dos processos, nas experi\u00eancias e brincadeiras de crian\u00e7a. Como escuteira fui desafiada em termos de atividades muito variadas de constru\u00e7\u00e3o, de resolu\u00e7\u00e3o de problemas e de jogos. Parecendo que n\u00e3o, isso faz querer assim algo mais aplicado.<\/p>\n<p>Na escolha de um percurso universit\u00e1rio tive um pequeno dilema entre a Matem\u00e1tica e a F\u00edsica. N\u00e3o tive um ensino de Qu\u00edmica muito forte, pelo que sempre estive muito polarizada para a F\u00edsica. Fiz Engenharia F\u00edsica Tecnol\u00f3gica em Lisboa, no curso do IST. \u00c0 data, o curso de Engenharia F\u00edsica era relativamente novo. Tinha uns quatro ou cinco anos, mas n\u00e3o era um curso muito falado. E se os vossos pais agora estranham, na altura ainda era pior. Eu tive sorte: os meus pais respeitaram as minhas escolhas, nunca me fizeram muita press\u00e3o para ir para um curso A ou B. Quando me chegaram \u00e0 m\u00e3o uns panfletos com as especifica\u00e7\u00f5es do curso de Engenharia F\u00edsica percebi que contrastava muito com a forma\u00e7\u00e3o dos cursos de Matem\u00e1tica, em particular na perspetiva de trabalho futuro. Este aspeto, tal como hoje, era uma preocupa\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca no processo de escolha, e as perspetivas do mundo laboral nos cursos de Matem\u00e1tica eram dirigidas para a banca, o que n\u00e3o tinha muito que ver com as coisas de que eu gostava \u2013 um exemplo importante: o meu pai foi relojoeiro durante algum tempo e eu aprendi com ele a montar e a desmontar rel\u00f3gios e a fazer pequenas repara\u00e7\u00f5es; eu gosto de atividades em que \u00e9 preciso \u201cmeter as m\u00e3os na massa\u201d.<\/p>\n<p>Quando vi o curso de Engenharia F\u00edsica pensei: \u201c&#8230;. \u00c9 interessante porque tem um pouco de ci\u00eancias, da F\u00edsica, da Matem\u00e1tica e tem uma perspetiva mais aplicada\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Um curso universit\u00e1rio nunca \u00e9 bem aquilo de que a gente est\u00e1 \u00e0 espera, mas \u00e9 claro que nos coloca muitos desafios e abre portas. Apesar do curso estar numa escola de engenharia, os tr\u00eas primeiros anos (de cinco) eram cientificamente bastante puxados, e, como agora, confundiam-se com a forma\u00e7\u00e3o de um curso universit\u00e1rio de F\u00edsica, mas com alguns toques de engenharia&#8230; No entanto, reconhe\u00e7o que essa estrutura de forma\u00e7\u00e3o foi essencial. Continuo a acreditar na import\u00e2ncia de uma abordagem cient\u00edfica muito bem fundamentada. \u00c9 importante conseguir fazer coisas, \u00e9 importante ter uma forma\u00e7\u00e3o mais aplicada quando h\u00e1 a ambi\u00e7\u00e3o em trabalhar em projetos mais ligados a aplica\u00e7\u00f5es, mas de facto reconhe\u00e7o que foi muito importante essa forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica s\u00f3lida.<\/p>\n<p>O quarto e quinto anos tinham uma flexibilidade incr\u00edvel, um pouco \u00e0 semelhan\u00e7a do que acontece agora com os perfis transversais do modelo de Bolonha. N\u00f3s s\u00f3 t\u00ednhamos essa flexibilidade nos quarto e quinto anos, incluindo forma\u00e7\u00e3o noutros departamentos.&nbsp; A\u00ed tentei alargar a minha aprendizagem a \u00e1reas da engenharia eletrot\u00e9cnica e de computadores. Liguei-me ao grupo de investiga\u00e7\u00e3o de Lasers e Plasmas do IST a partir do terceiro ano do curso, onde tamb\u00e9m desenvolvi o meu projeto final.<\/p>\n<p>Fiz trabalhos de simula\u00e7\u00e3o num\u00e9rica e \u00f3tica aplicada, com direito a forma\u00e7\u00e3o paralela importante na constru\u00e7\u00e3o e escrita de projetos cient\u00edficos, concursos a financiamentos e a bolsas, em simult\u00e2neo com o trabalho em equipa com investigadores jovens e em in\u00edcio de carreira, numa equipa muito din\u00e2mica. Permitiu-me a forma\u00e7\u00e3o sobre o dia-a-dia da investiga\u00e7\u00e3o. Todas estas vertentes burocr\u00e1ticas s\u00e3o tamb\u00e9m fundamentais, pois sem financiamento n\u00e3o h\u00e1 investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trabalhei no desenvolvimento de um sistema LIDAR, tanto na simula\u00e7\u00e3o do sistema \u00f3tico, como na integra\u00e7\u00e3o e automatiza\u00e7\u00e3o da instrumenta\u00e7\u00e3o, num projeto que na altura corria com a EDP para instala\u00e7\u00e3o de um sistema para a dete\u00e7\u00e3o de poluentes atmosf\u00e9ricos na Central Termoel\u00e9trica de Set\u00fabal (que foi &#8211; ou est\u00e1 em fase de ser &#8211; desativada recentemente). Este foi o primeiro desafio aplicado.<\/p>\n<p>No meu projeto final de mestrado trabalhei no desenvolvimento de um sistema de interface para a gera\u00e7\u00e3o de raios X pulsados, a partir do laser TW em instala\u00e7\u00e3o no Grupo de Lasers e Plasmas. O projeto era conceptualmente simples: impulsos laser muito curtos de um laser super intenso eram disparados como balas de luz para um material, arrancando-lhe eletr\u00f5es. Nesse processo h\u00e1 emiss\u00e3o de raios X num intervalo de tempo muito, muito curto, abrindo a perspetiva de resolu\u00e7\u00f5es temporais em processos de caracteriza\u00e7\u00e3o por raios X.<\/p>\n<p>No quarto ano da licenciatura fiz forma\u00e7\u00e3o em aplica\u00e7\u00f5es biom\u00e9dicas, disciplina transversal oferecida pela Eng\u00aa Eletrot\u00e9cnica do IST. Mais tarde optei por fazer mestrado em Engenharia Eletrot\u00e9cnica procurando solidificar alguns conhecimentos mais ligados \u00e0 Engenharia que podiam ser \u00fateis numa carreira mais aplicada e experimental. Procurei fazer forma\u00e7\u00e3o em disciplinas que n\u00e3o tinha tido oportunidade de fazer no curso, como redes neuronais e sistemas digitais \u2013 esta \u00faltima oferecida com uma abordagem assustadoramente te\u00f3rica. Depois troquei essa disciplina: era dada por uma engenheira, mas de uma forma t\u00e3o encapsulada que eu n\u00e3o estava a ter aquilo que queria &#8211; a parte pr\u00e1tica &#8211; por isso troquei por redes neuronais, que foi muito interessante. Durante essa forma\u00e7\u00e3o de mestrado, acabei tamb\u00e9m por fazer cadeiras como Sensores e An\u00e1lise e Processamento de Sinal.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos sempre muito preocupados com o fim de curso, e em particular com as oportunidades de emprego, mas estas s\u00e3o coisas que n\u00f3s n\u00e3o controlamos. Dependem muito do mercado, das oportunidades e dos contactos que vamos construindo. Parece-me que um fator muito importante \u00e9 fazermos algo de que gostamos, e escolher um percurso que seja minimamente coerente e que responda \u00e0s nossas aptid\u00f5es. Quando escolhemos um percurso em coisas que nos despertam curiosidade, que n\u00e3o dominamos, queremos aprender mais, dedicamo-nos mais, e dessa forma maximizamos as nossas probabilidades de sucesso. Tal pode implicar enfrentar temas que nos assustam. [&#8230;]<\/p>\n<p>As m\u00e9dias de curso s\u00e3o importantes para concorrer a bolsas de investiga\u00e7\u00e3o e de doutoramento porque vos abrem portas, como para \u00e0s bolsas da FCT, em que os recrutadores n\u00e3o t\u00eam contacto com os candidatos, onde n\u00e3o h\u00e1 uma entrevista, e a avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 feita numa <em>pool <\/em>de candidatos muito grande.<\/p>\n<p>Quando embarcamos em projetos de mestrado e doutoramento colocamo-nos potencialmente em situa\u00e7\u00f5es de tens\u00e3o. O entusiasmo inicial pode alternar com outros momentos complicados, em que o cientista \u00e9 verdadeiramente testado na sua perseveran\u00e7a, na qualidade de trabalho e na robustez f\u00edsica e mental. E como em todos os projetos, h\u00e1 fases que n\u00e3o correm como gostar\u00edamos. No caso da minha tese de mestrado, eu estava dependente de algum trabalho de terceiros, ou seja, o meu trabalho de tese s\u00f3 podia ser aplicado sobre resultados de trabalho colaborativo, mas essa era uma vari\u00e1vel que eu n\u00e3o controlava, um risco.<\/p>\n<p>Na altura, estive a ponderar se acabado o mestrado ia trabalhar ou ia procurar outras oportunidades. De facto, surgiu-me a oportunidade muito interessante de trabalhar em biossensores em Oeiras, no Instituto de Tecnologia Qu\u00edmica e Biol\u00f3gica (ITQB). Aqui h\u00e1 tamb\u00e9m o iBET, um instituto de interface mais virado para as empresas, com uma parte de investiga\u00e7\u00e3o e de trabalho mais para aplica\u00e7\u00f5es que v\u00eam do lado das mesmas. Ali o desafio era muito interessante. Eu sempre tive essa ambi\u00e7\u00e3o de fazer coisas que pudessem ser aplicadas, aquela ideia de fazer qualquer coisa que seja \u00fatil para a sociedade. D\u00e1 um gozo diferente saber que h\u00e1 qualquer coisa que possa estar a ser utilizada. Tamb\u00e9m da\u00ed o interesse e motiva\u00e7\u00e3o pela F\u00edsica M\u00e9dica e as aplica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>O trabalho no ITQB foi muito interessante. No laborat\u00f3rio de biossensores havia um ambiente completamente multidisciplinar. A equipa tinha quatro ou cinco pessoas: o l\u00edder da equipa, engenheiro qu\u00edmico, mais uma qu\u00edmica no laborat\u00f3rio, dois engenheiros qu\u00edmicos e o f\u00edsico ou a f\u00edsica, que neste caso era eu. Chegou a haver gente de eletr\u00f3nica e, entretanto, fizemos alguns projetos com alunos do IST. Eu n\u00e3o conhecia a \u00e1rea de biossensores. Vi o an\u00fancio no jornal &#8211; h\u00e1 aquelas oportunidades que surgem sem a gente estar \u00e0 espera &#8211; e comecei a ler um bocadinho sobre a \u00e1rea. Fui \u00e0 entrevista de forma muito relaxada, porque estava ainda vinculada ao trabalho da tese de mestrado e andava a explorar as oportunidades. Tinha achado a \u00e1rea muito interessante, mas, como n\u00e3o sabia muito sobre o assunto, a dada altura era eu a entrevistar o l\u00edder do grupo, o professor Abel Oliva, do que propriamente ele a entrevistar a candidata. Ele ter\u00e1 aproveitado a entrevista \u00e0 sua maneira. Sei que vim de l\u00e1 com livros. A sess\u00e3o acabou com \u201cah leve estes livros e veja, estes s\u00e3o muito interessantes, tem aqui umas <em>reviews<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se sabem o que s\u00e3o biossensores? Pelo nome d\u00e1 para ter uma ideia. Obviamente que o sensor tem de ter uma parte de instrumenta\u00e7\u00e3o, de an\u00e1lise de sinal e tudo isso, mas a parte ativa do sensor \u00e9 uma parte que depende fortemente de fatores biol\u00f3gicos, havendo uma mir\u00edade de possibilidades. Podemos usar mol\u00e9culas, daqui o papel dos qu\u00edmicos, bi\u00f3logos e bioqu\u00edmicos (estava-me a esquecer deles). O ambiente era completamente novo para mim, assim como a linguagem, completamente nova, de uma \u00e1rea cient\u00edfica muito diferente da minha forma\u00e7\u00e3o, e era engra\u00e7ado por isso mesmo.<\/p>\n<p>No T\u00e9cnico faz\u00edamos um laborat\u00f3rio de qu\u00edmica no primeiro ano, que era importante, mas passava depressa. Coisas t\u00e3o simples como estar a trabalhar com nitritos, que \u00e9 uma subst\u00e2ncia super perigosa em concentra\u00e7\u00f5es elevadas, e ver uma mancha de l\u00edquido na banca que parece \u00e1gua\u2026 Exige que uma pessoa ponha na cabe\u00e7a \u201cn\u00e3o, isto aqui tem subst\u00e2ncias perigosas, logo: luvas, bata&#8230;\u201d e por isso h\u00e1 todo um reaprender de como estar no laborat\u00f3rio, de como falar das coisas e de como questionar . Por exemplo, nem toda a gente tem facilidade em questionar e eu tamb\u00e9m tinha alguma dificuldade, mas rapidamente perdi o pudor e fazia aquelas perguntas simples como: \u201co que \u00e9 um catalisador&#8230;?\u201d. Havia conhecimentos ou procedimentos correntes do dia-a-dia de um qu\u00edmico ou bi\u00f3logo de que eles falavam e eu pensava, perdida, \u201celes est\u00e3o a falar de qu\u00ea?\u201d. Quebrar essa barreira, pedir uma explica\u00e7\u00e3o a um colaborador de outras \u00e1reas cient\u00edficas \u00e0s vezes implica problemas de comunica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m cria situa\u00e7\u00f5es engra\u00e7adas e de grande partilha. O ambiente de trabalho, apesar de ser um grupo pequenino, era espetacular. T\u00ednhamos os qu\u00edmicos que trabalhavam a parte de marcadores qu\u00edmicos, caracteriza\u00e7\u00e3o fotoqu\u00edmica de agentes; os bioqu\u00edmicos trabalhavam a parte bioqu\u00edmica de imuno-sensores a partir de anticorpos e antig\u00e9nios manipulados, e fixados em suportes f\u00edsicos adequados ao m\u00e9todo de medida.<\/p>\n<p>Eu comecei por utilizar part\u00edculas de vidro poroso porque esse material dava para aprisionar essas mol\u00e9culas, mas deixava passar os flu\u00eddos de an\u00e1lise. Fazia pequenos prot\u00f3tipos com c\u00e2maras de flu\u00eddo em acr\u00edlico para a passagem controlada desses flu\u00eddos na zona de medida \u00f3tica. Continuava a trabalhar com lasers e em \u00f3tica aplicada.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 pergunta inicial de como foi o meu percurso acad\u00e9mico: fiz o percurso com forma\u00e7\u00e3o numa \u00e1rea mais aplicada, mas sem perder liga\u00e7\u00e3o \u00e0s ci\u00eancias mais fundamentais. Abracei sequencialmente projetos direcionados para aplica\u00e7\u00f5es da luz, sempre utilizando muita parte de implementa\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias, de lidar com a parte de eletr\u00f3nica, com aquisi\u00e7\u00e3o e controlo autom\u00e1ticos. Ali\u00e1s, nesse sistema LIDAR de que vos falei tive de fazer simula\u00e7\u00e3o da parte \u00f3tica, em C, por isso na altura n\u00e3o est\u00e1vamos a usar <em>software<\/em>, est\u00e1vamos mesmo a fazer toda a cadeia de sinal \u00f3tico e a simular essa parte em fun\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros do sistema. Como depois estive envolvida na primeira vers\u00e3o do prot\u00f3tipo, praticamente fui eu que estive a trabalhar nessa parte de controlo autom\u00e1tico. Agora usamos LabVIEW, mas na altura us\u00e1vamos uma plataforma que ainda deve existir, o TestPoint, que era muito parecido. Estive sempre a trabalhar um bocadinho nestas \u00e1reas em que utilizamos luz para fazer aplica\u00e7\u00f5es que s\u00e3o desde detetar poluentes, a medir concentra\u00e7\u00f5es de nitrito, a detetar produ\u00e7\u00e3o de raios X.<\/p>\n<p>Depois, acho que h\u00e1 uma coisa que \u00e9 interessante dizer-vos: quando optei por fazer o mestrado, as licenciaturas eram de cinco anos na altura, pelo que n\u00f3s sa\u00edamos licenciados como agora voc\u00eas saem mestres. Acab\u00e1vamos j\u00e1 com uma boa bagagem e alguma experi\u00eancia porque naqueles dois anos extra do curso t\u00ednhamos algumas disciplinas e faz\u00edamos um trabalho final, que acabava por ser um trabalho bastante dedicado e j\u00e1 tamb\u00e9m em ambiente de grupo de investiga\u00e7\u00e3o. E como \u00e9 normal havia muita gente, ainda por cima em F\u00edsica\/Engenharia F\u00edsica, que era muito pr\u00f3ximo da F\u00edsica, com o grande dilema: vou trabalhar ou fazer doutoramento quando acabar o curso? Agora se calhar esse dilema j\u00e1 n\u00e3o se coloca tanto, espero que n\u00e3o. Na altura as oportunidades de emprego eram dif\u00edceis de encontrar. Elas existiam porque, de facto, n\u00e3o tenho conhecimento de colegas sem trabalho ap\u00f3s a licenciatura. Na altura, uma boa parte continuava a trabalhar em projetos de investiga\u00e7\u00e3o (com bolsas) e acabou por ser o que me aconteceu tamb\u00e9m, mas a maior parte dos meus colegas continuava diretamente para doutoramento. O percurso normal de quem fazia Engenharia F\u00edsica em boa parte passava por um doutoramento ou ir para fora; uma carreira acad\u00e9mica. As empresas n\u00e3o contratavam muitos engenheiros f\u00edsicos &#8211; hoje j\u00e1 v\u00e3o conhecendo o perfil. Ent\u00e3o decidi \u201cn\u00e3o vou fazer doutoramento j\u00e1, n\u00e3o sei se quero seguir essa via&#8230; Vou fortalecer as compet\u00eancias t\u00e9cnicas\u201d. Depois do trabalho que fiz com os biossensores durante quase dois anos no ITQB comecei a ponderar.<\/p>\n<p>O ITQB j\u00e1 tinha contactos aqui com o Porto e p\u00f4s-se a hip\u00f3tese de fazer um doutoramento numa \u00e1rea ligada aos biossensores. Eu tinha dificuldade em faz\u00ea-lo em Lisboa porque estava a trabalhar num grupo de qu\u00edmicos, bioqu\u00edmicos, engenheiros qu\u00edmicos e eu continuava a dizer \u201cn\u00e3o, eu se fizer doutoramento fa\u00e7o em F\u00edsica\u201d.<\/p>\n<p><em><strong>MC: <\/strong>Diria que o projeto em que esteve ligada aos biossensores foi o projeto mais desafiante da sua carreira? Ou h\u00e1 outro que achou mais marcante?<\/em><\/p>\n<p><strong>CCR:<\/strong> Acho que teve outro papel. Foi mais importante para me ligar mais a essa \u00e1rea e perceber o seu impacto e olhar para os sensores de uma forma diferente. [\u2026] Se quisermos analisar o sangue de pacientes temos de ter sensores capazes de detetar um par\u00e2metro ou mol\u00e9cula espec\u00edficos, sendo cegos a todas os outros &#8211; o grande problema e desafio no desenvolvimento de novos biossensores. [&#8230;]<\/p>\n<p>No \u00e2mbito do trabalho no INESC TEC surgiu-me um projeto que provavelmente nunca me surgiria de forma natural, mas que surgiu da miss\u00e3o deste instituto na procura de respostas a desafios que vinham de fora, sociedade e\/ou ind\u00fastria. O instituto foi contactado para arranjar uma plataforma que, a partir de sinais \u00f3ticos [\u2026] determinasse a qualidade de \u00f3leos alimentares de fritura. Se me perguntassem: era a minha motiva\u00e7\u00e3o principal de investiga\u00e7\u00e3o? N\u00e3o era, mas foi um desafio importante onde utiliz\u00e1mos ferramentas adquiridas no percurso de investiga\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o. Esse projeto acabou por ser dos mais desafiantes. Conseguimos alguns resultados interessantes, mas ainda n\u00e3o suficientes para um verdadeiro prot\u00f3tipo final e comercial. [\u2026] Portanto, esse foi um projeto marcante, n\u00e3o porque conseguimos chegar ao fim com o resultado que todos quer\u00edamos, mas porque foi um projeto onde eu pus dois anos e meio de trabalho, em paralelo com tudo o resto. Arriscaria dizer que em todas as carreiras cient\u00edficas s\u00e3o poucos os momentos de beber o copo de champanhe. Foi um desafio marcante, mas n\u00e3o por aquilo que est\u00e3o a imaginar. A motiva\u00e7\u00e3o foi muito diferente de: \u201cah, este trabalho vai-me dar um Nobel!\u201d.<\/p>\n<p><em><strong>MC: <\/strong>Como foi chegar ao cargo de diretora de curso de mestrado em F\u00edsica M\u00e9dica e ter acesso a este cargo com import\u00e2ncia no percurso acad\u00e9mico dos alunos e da faculdade?<\/em><\/p>\n<p>O curso de F\u00edsica M\u00e9dica nasceu na Faculdade de Ci\u00eancias h\u00e1 cerca de catorze anos. Nasceu como uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e funcionou como tal durante dois anos. Foi proposto pelos professores Joaquim Agostinho Moreira e Ant\u00f3nio Pereira Leite. Colaborei muito com eles no in\u00edcio (mas dou-lhes o cr\u00e9dito a eles, foram os grandes motores do curso).<\/p>\n<p>Entrei na FCUP como Assistente, ainda aluna de doutoramento. [&#8230;] A partir do momento que uma pessoa entra na carreira acad\u00e9mica, acaba por ser intr\u00ednseco o assumir destas responsabilidades e, de facto, s\u00e3o coisas que nos tiram algum tempo, mas s\u00e3o atividades muito importantes. A parte da coordena\u00e7\u00e3o, no caso da F\u00edsica M\u00e9dica, \u00e9 um pouco espec\u00edfica, porque o curso existe protocolado com o Instituto Portugu\u00eas de Oncologia Francisco Gentil, do Porto (IPO)<strong>, <\/strong>que tem uma participa\u00e7\u00e3o muito importante. H\u00e1 tamb\u00e9m protocolo com o ICBAS, onde tamb\u00e9m vamos buscar alguma forma\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, mesmo a n\u00edvel de teses, todos os trabalhos que t\u00eam sido realizados s\u00e3o maioritariamente trabalhos da Faculdade de Ci\u00eancias com o IPO, havendo, contudo, alguns realizados com outros institutos. \u00c9 necess\u00e1rio trabalho de coordena\u00e7\u00e3o e de pesquisa, acrescido pelo facto de ser um curso muito grande. [&#8230;]<\/p>\n<p><em><strong>Catarina Lemos (CL):<\/strong> Investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p><strong>CCR:<\/strong> Dif\u00edcil n\u00e3o ser\u00e1 a palavra\u2026 Acho que a quest\u00e3o \u00e9 mais a gest\u00e3o de tempo. Um acad\u00e9mico concilia investiga\u00e7\u00e3o com doc\u00eancia, gest\u00e3o\u2026 Todos s\u00e3o importantes, mas de facto esta multiplicidade de tarefas distribu\u00eddas ao longo do dia muitas vezes torna-se complicada. Talvez mais desgastante e o que nos limita \u00e9 o facto de estarmos a pular de umas coisas para as outras: &#8220;hoje tenho que pensar no curso de F\u00edsica M\u00e9dica, amanh\u00e3 tenho que pensar no projeto, depois no outro dia tenho de pensar nas aulas, depois volta a f\u00edsica m\u00e9dica, e depois&#8230; onde \u00e9 que eu fiquei?\u201d E depois a investiga\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 algo que exige uma boa capacidade de gest\u00e3o de tempo, que uns far\u00e3o melhor que outros, mas que desgasta um bocadinho\u2026 Se eu sou investigadora e tenho ali \u201caquelas coisas para fazer&#8221;, nesse aspeto \u00e9 mais f\u00e1cil.&nbsp; [&#8230;]<\/p>\n<p>Por exemplo, a respeito disso, eu fiz uma boa parte do meu trabalho no estrangeiro. O meu doutoramento foi na Universidade do Porto, mas estive 1 ano e 3 meses fora; e aquele ano que estive em Inglaterra foi&#8230;muito bom! Eu j\u00e1 era assistente c\u00e1, estava a dar aulas e a fazer tese\u2026 Aquele ano em que eu l\u00e1 estive para mim foi, de facto, uma lufada de ar fresco porque\u2026 para j\u00e1, o ambiente de trabalho l\u00e1 \u00e9 espetacular: h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito horizontal: os professores discutem ci\u00eancia com os seus orientandos ao mesmo n\u00edvel\u2026 O momento do ch\u00e1 para discutir futebol ou ci\u00eancia era muito importante, o pr\u00f3prio interc\u00e2mbio que t\u00eam entre os investigadores que est\u00e3o no laborat\u00f3rio \u00e9 diferente e algo que eu n\u00e3o vejo tanto c\u00e1. Por exemplo, se tiveres um problema, vais falar com colega do lado e h\u00e1 uma discuss\u00e3o talvez menos preocupada ou mais aberta. Porque \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o o fazemos? N\u00e3o sei, pode ser uma coisa cultural, mas l\u00e1 era uma coisa espetacular; algu\u00e9m precisava de resolver um problema e lev\u00e1vamo-lo para a hora do ch\u00e1, n\u00e3o era preciso convocar uma reuni\u00e3o: um dizia para fazer assim, o outro dizia para experimentar desta maneira, etc&#8230; e isso era muito bom.<\/p>\n<p>Outro aspeto importante \u00e9 a autoconfian\u00e7a que isso nos d\u00e1\u2026 eu n\u00e3o sei se voc\u00eas costumam trabalhar em grupo uns com os outros, mas essa partilha tamb\u00e9m nos d\u00e1 confian\u00e7a, sentimo-nos apoiados e ao mesmo tempo participativos, isso \u00e9 muito importante. E na altura, quando l\u00e1 estava, e \u00e9 muito comum l\u00e1 em Inglaterra fazerem isso com os alunos de doutoramento, se quisesse ajudar nas tarefas de laborat\u00f3rio, aulas, corre\u00e7\u00e3o de provas\u2026 perguntavam coisas do g\u00e9nero: \u201cn\u00e3o queres ganhar uns trocos aqui a corrigir uns testes?\u201d. E eu respondia: \u201cn\u00e3o, isso \u00e9 uma coisa que eu fa\u00e7o l\u00e1 (Portugal), aqui (Inglaterra) tenho que aproveitar ao m\u00e1ximo\u201d. Tinha o tempo todo para mim e essa era a grande diferen\u00e7a. Efetivamente isso \u00e9 uma coisa que se perde quando se assumem responsabilidades. Pronto, eu acho que umas componentes s\u00e3o mais importantes que outras, e tento ir apagando os fogos com as coisas que eu considero mais importantes, mas h\u00e1, de facto, aspetos na vida acad\u00e9mica que condicionam tamb\u00e9m a vida de outros, e tento, portanto, priorizar aspetos que s\u00e3o mais importantes, correndo sempre o risco desse desgaste de acumula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a investiga\u00e7\u00e3o neste momento torna-se um bocadinho complicada mas tem que andar para a frente\u2026<\/p>\n<p><em><strong>Lu\u00eds Afonseca (LA):<\/strong> Tem algum conselho que gostaria de dar aos seus alunos, em particular para aqueles que pretendem seguir a vertente de investiga\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>CCR: O mais importante \u00e9 fazerem op\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am sentido e escolherem um caminho que gostam. O caminho n\u00e3o vai ser sempre \u201ccor de rosa\u201d. Vai ser um caminho com altos e baixos, com muita satisfa\u00e7\u00e3o quando se chega aos altos, mas vai exigir muita energia quando \u00e9 preciso \u201csubir o monte\u201d. O <em>fazer algo que se gosta<\/em> \u00e9 mesmo muito importante\u2026 [&#8230;]<\/p>\n<p><em><strong>MC:<\/strong> Pondo de outra maneira: o que \u00e9 que quer transmitir \u00e0s pessoas quando olham para os seus olhos?<\/em><\/p>\n<p>CCR: Bem, eu gostava que os meus olhos transmitissem algum entusiasmo, acho que isso \u00e9 importante tamb\u00e9m para transmitir que estou a fazer aquilo de que gosto e que isso possa, de alguma forma, tamb\u00e9m ser inspira\u00e7\u00e3o para algu\u00e9m\u2026 Mas n\u00e3o sei. \u201cO que \u00e9 que os meus olhos podem dizer?\u201d&#8230; \u00c9 que eu posso ver essa pergunta de tantas formas diferentes\u2026 Eu gostava que os meus olhos dissessem que veem uma gera\u00e7\u00e3o \u00e0 sua frente; lidamos todos os dias com pessoas que gostamos de pensar que s\u00e3o da nossa idade, mas que s\u00e3o mais novos\u2026 Acho que gostava que os meus olhos dissessem que est\u00e3o a ver uma gera\u00e7\u00e3o empenhada, de esp\u00edrito cr\u00edtico, que questiona e que se preocupa com valores importantes. &nbsp;[&#8230;] H\u00e1 muitas coisas que os nossos olhos veem que afetam o entusiasmo por eles transmitido. Portanto, gostava que os meus olhos transmitissem, de facto, algum entusiasmo e essa necessidade de questionar as coisas, sem teorias da conspira\u00e7\u00e3o, com razoabilidade\u2026 Para que o esp\u00edrito cr\u00edtico possa lidar com a informa\u00e7\u00e3o, com os outros, e agirmos em conjunto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista pelo Martim Carvalho, pela Catarina Lemos e pelo Lu\u00eds Afonseca \u00e0 Professora Carla Rosa Martim Carvalho (MC): Antes de mais, queremos agradecer o facto de a professora ter aceite esta proposta, disponibilizado este bocadinho de tempo para estar connosco. Comecemos ent\u00e3o por falar um pouco de si e do seu percurso acad\u00e9mico, se puder [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":437,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/927"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=927"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/927\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":930,"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/927\/revisions\/930"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/media\/437"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}