{"id":822,"date":"2019-11-03T18:57:42","date_gmt":"2019-11-03T18:57:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/?page_id=822"},"modified":"2021-02-07T16:36:53","modified_gmt":"2021-02-07T16:36:53","slug":"professor-joao-viana-lopes","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/professor-joao-viana-lopes\/","title":{"rendered":"Professor Jo\u00e3o Viana Lopes"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista por Patr\u00edcia Vieira, Mafalda Matos e Martim Carvalho ao Professor Jo\u00e3o Viana Lopes<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><em><b>Patr\u00edcia Vieira (PV): O que pode dizer do seu percurso acad\u00e9mico e da sua evolu\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da F\u00edsica?<\/b><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\">Jo\u00e3o Viana Lopes (JVL): Basicamente, o meu percurso foi todo aqui nesta casa. Fiz aqui a licenciatura, depois o mestrado e o doutoramento. A seguir, estive em Lisboa e na Alemanha. Voltei e fui para a FEUP e agora estou c\u00e1 de novo. Portanto, s\u00e3o muitos anos aqui na casa.<\/p>\n<p class=\"p1\"><em><b>PV: E o que pode dizer das suas experi\u00eancias aqui na Faculdade de Ci\u00eancias e em volta do seu percurso?<\/b><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>JVL<\/strong>: Na altura, o curso era muito diferente do que \u00e9 hoje, incluindo o corpo docente. Eu fiz o curso h\u00e1 muitos anos, vinte e tal, portanto a maioria das pessoas que tive como professores j\u00e1 se reformou. Era um curso muito menos focado na investiga\u00e7\u00e3o. Eu lembro-me, mesmo no final da d\u00e9cada de 90, que se fazia uma festa quando se publicava numa revista melhor. Hoje em dia, digamos que o mundo mudou muito e que a maioria das pessoas est\u00e1 envolvida em m\u00faltiplos projetos, viaja imenso&#8230;. \u00c9 dif\u00edcil fazer um paralelo desse tempo com o de agora. Por exemplo, no que diz respeito aos estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, n\u00f3s hoje temos os mestrados a funcionar. N\u00e3o sei exatamente quantos alunos de doutoramento temos, mas s\u00e3o largas dezenas. Para voc\u00eas terem uma ideia, o mestrado que eu fiz, que foi em F\u00edsica do Estado S\u00f3lido, n\u00e3o abria h\u00e1 muitos anos e naquele ano s\u00f3 o fez porque conseguiu um n\u00facleo de quatro pessoas. E que eu saiba, foi a \u00faltima vez que abriu. O departamento de l\u00e1 para c\u00e1 mudou muito, evoluiu, e a f\u00edsica em Portugal tamb\u00e9m mudou bastante.<\/p>\n<p class=\"p1\">Portanto, o meu percurso foi esse. Na altura, o que acontecia era que nem sempre havia bolsas. No ano em que<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>terminei a licenciatura n\u00e3o as havia para mestrados. Portanto, comecei a trabalhar. Fiz o meu enquanto dava aulas. Nesse sentido, entrei no mundo laboral muito mais cedo do que o que hoje em dia \u00e9 habitual, e tive que conciliar as duas coisas. Trabalhava numa escola que tinha o ensino t\u00e9cnico profissional, onde dava aulas de F\u00edsica aos 11\u00ba e 12\u00ba anos. Depois, vinha para aqui e ficava at\u00e9 tarde a fazer os trabalhos associados ao meu curso. Quase sempre tive esse trajeto, que foi a fazer investiga\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e, em simult\u00e2neo, a dar aulas. Portanto, foi mais o tempo em que lecionei do aquele em que n\u00e3o, ao longo destes anos todos, desde \u201896 at\u00e9 agora.<\/p>\n<p class=\"p1\"><em><b>Mafalda Matos (MM): Foi a\u00ed que desenvolveu o gosto pelo ensino?<\/b><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>JVL:<\/strong> Sim, desde o primeiro momento. Eu fui absolutamente privilegiado. Em v\u00e1rios momentos da vida tive oportunidade de fazer coisas que s\u00e3o raras. Lembro-me que quando terminei a licenciatura e fui dar aulas tinha 22 anos. Portanto, era bastante novo para o padr\u00e3o de hoje, mas o mais engra\u00e7ado \u00e9 que tinha alunos com 21. Era uma escola t\u00e9cnico-profissional e as circunst\u00e2ncias eram dif\u00edceis. As pessoas estavam a fazer o diploma e a maioria delas s\u00f3 queria ir trabalhar, mas n\u00e3o o conseguia porque chumbava nos exames de F\u00edsica, Matem\u00e1tica e Geometria Descritiva. Creio que na altura eram os tr\u00eas grandes blocos de reprova\u00e7\u00e3o. Deste modo, depois andavam v\u00e1rios anos a repeti-los e &#8211; por muito que os professores dessem at\u00e9 notas altas durante o ano &#8211; chegavam ao exame e chumbavam. Era o suficiente para n\u00e3o terem o diploma.<\/p>\n<p class=\"p1\">Na altura, quando eu fui dar aulas para um col\u00e9gio em Gaia, tive a oportunidade incr\u00edvel de ouvir os diretores dizerem-me: \u00abFaz o que quiseres com eles. N\u00f3s n\u00e3o queremos saber desde que eles se v\u00e3o embora com o diploma\u00bb. Portanto, eu pude fazer exatamente o que me apetecia durante o ano todo, sendo que era suposto que, no final, eles conseguissem fechar aquele percurso da vida, ou seja, tirar uma nota no exame nacional que lhes permitisse ter o diploma. Por isso, quase nunca tive interfer\u00eancias pedag\u00f3gicas. Se eu hoje come\u00e7asse a contar as coisas que fazia aos alunos provavelmente moviam-me um processo &#8211; nos tempos que correm em que tantas coisas parecem mal e existe tanto escrut\u00ednio<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>\u2013, mas funcionavam.<\/p>\n<p class=\"p1\"><em><b>PV: Mencionou nas aulas que foi a \u00c1frica, tendo participado em v\u00e1rios projetos. O que \u00e9 que pode dizer dessa sua experi\u00eancia filantr\u00f3pica?<\/b><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>JVL:<\/strong> Eu n\u00e3o lhe chamaria bem filantr\u00f3pica porque, algumas das vezes que fui, cheguei a ser pago e muito bem.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp; <\/span>Mas deixem-me s\u00f3 contextualizar: eu nasci em \u00c1frica, em Mo\u00e7ambique. Vim muito pequenino para casa, mas digamos que na minha educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a e em alguns h\u00e1bitos familiares sempre esteve presente essa mem\u00f3ria. A lembran\u00e7a dos meus pais, os h\u00e1bitos, a frequ\u00eancia com que \u00edamos \u00e0 praia e com que se comia marisco (por exemplo, que era uma coisa muito habitual em Mo\u00e7ambique), essas coisas sempre estiveram presentes. A minha m\u00e3e fazia caril e a maioria das fam\u00edlias portuguesas na altura n\u00e3o tinham esse h\u00e1bito. Ou seja, existe uma presen\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 f\u00edsica nem ligada ao estar l\u00e1, mas sim cultural. E n\u00e3o s\u00f3. Durante a minha adolesc\u00eancia, lembro-me de haver negros no nosso contacto familiar, coisa rara. Eu sou de Viana do Castelo, havia muito poucas pessoas de cor na altura, mas os meus pais davam-se com algumas, que frequentavam a nossa casa e eram nossos amigos. Alguns deles at\u00e9 s\u00e3o quase fam\u00edlia, de uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte que h\u00e1. Por isso, n\u00e3o \u00e9 que tenha de repente acordado, num certo dia, a pensar \u00abAh, vou para \u00c1frica.\u00bb; ali\u00e1s, eu detesto completamente o discurso dos \u201cpobrezinhos\u201d, portanto n\u00e3o \u00e9 muito por a\u00ed.<\/p>\n<p class=\"p1\">Muito antes de ir \u2013 a primeira vez que fui \u00e0 Angola foi em 2009 \u2013 comecei a construir ideias sobre a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o nos PALOP e da import\u00e2ncia da F\u00edsica estar presente desde o final dos anos 90. Lembro-me de alguns eventos e de algumas discuss\u00f5es que tive com pessoas mais ligadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 nesse tempo eu tinha vontade de fazer mudan\u00e7as no modo como divulg\u00e1vamos a F\u00edsica e a Ci\u00eancia. Com esta motiva\u00e7\u00e3o, criei, juntamente com o professor Miguel Costa, a Escola de Ver\u00e3o de F\u00edsica aqui, em 2005. Pouco tempo depois, passados um ou dois anos &#8211; como tinha amigos que estavam em trabalho de voluntariado em \u00c1frica \u2013 houve a oportunidade de trazer tamb\u00e9m uma aluna de S\u00e3o Tom\u00e9. Eu agarrei essa oportunidade, com todas as dificuldades que isso implicava, inclusive no or\u00e7amento da escola. Lembro-me de me ter envolvido muito para encontrar um patrocinador e conseguir trazer a estudante. Fiquei muito feliz quando o consegui. A partir da\u00ed, a Escola de Ver\u00e3o de F\u00edsica come\u00e7ou regularmente a trazer alunos dos PALOP, com tudo o que isso implicava em custos e contactos, pois estar a contactar \u00e0 dist\u00e2ncia n\u00e3o era f\u00e1cil.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em 2009, retomei a liga\u00e7\u00e3o a Africa associado \u00e0 escola onde tinha trabalhado quando tinha terminado a minha licenciatura. Eles tinham grandes liga\u00e7\u00f5es com Angola e eu tive a sorte (h\u00e1 coisas que funcionam mesmo por sorte) de ter esse privil\u00e9gio de l\u00e1 ir, numas condi\u00e7\u00f5es francamente boas: n\u00e3o s\u00f3 me estavam a pagar \u2013 o que era importante, mas n\u00e3o o principal \u2013 como tive tamb\u00e9m a oportunidade, que eu acho que dificilmente se poder\u00e1 repetir, de ter recursos bastante bons. Basicamente, o que quer que fosse preciso aparecia, quer do ponto de vista de custos, de gastos, de ter um motorista, um jipe, log\u00edstica em geral. Levava comigo pelo pa\u00eds fora uma mala cheia de ferramentas caso fosse preciso reparar coisas, algum equipamento de substitui\u00e7\u00e3o. Tive de fazer uma previs\u00e3o do que poderia precisar no terreno. Portanto, percorri 10.000 km de escola em escola. Na altura, havia um programa nacional de reequipamento de escolas de ensino profissional e estavam envolvidos materiais e laborat\u00f3rios de F\u00edsica. Geralmente eu abria os laborat\u00f3rios, fazia o seu invent\u00e1rio e dava forma\u00e7\u00e3o aos professores locais &#8211; \u00e0s vezes, aos professores expatriados, aos professores cubanos ou brasileiros que l\u00e1 estavam. O sistema deles n\u00e3o \u00e9 exatamente como o nosso, h\u00e1 muitos parceiros estrangeiros e muita troca de docentes, \u00e9 um bocadinho mais confuso. Dava-lhes uma forma\u00e7\u00e3o com aquilo que as instala\u00e7\u00f5es tinham, part\u00edamos do que os professores sabiam e come\u00e7\u00e1vamos a trabalhar. Era uma coisa muito intensa de 20 e tal horas, feita em 3 dias, mas acho que funcionou. Foi suficiente para os laborat\u00f3rios arrancarem e para mim foi uma \u00f3tima experi\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p1\">De l\u00e1 para c\u00e1, voltei mais uma vez a participar nesse programa e, depois, aqui com a faculdade, eu e o professor Lopes dos Santos fomos em 2015 \u00e0 Jos\u00e9 Eduardo dos Santos fazer uma a\u00e7\u00e3o com alunos da universidade. Envolvia coisas mais pr\u00f3ximas ao que eu vos ensino: uso dos computadores e do <em>Jupyter<\/em> para aprender F\u00edsica e Matem\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"p1\">Fora isso, temos submetido projetos. Apesar de ser extremamente dif\u00edcil, gostar\u00edamos de expandir esta colabora\u00e7\u00e3o com os PALOP, com a promo\u00e7\u00e3o nas ci\u00eancias exatas l\u00e1, numa liga\u00e7\u00e3o mais frequente. Mas isso custa sempre tudo muito dinheiro e n\u00e3o \u00e9 propriamente f\u00e1cil arranj\u00e1-lo. Formam-se iniciativas, mas nem sempre se consegue financiamento e elas v\u00e3o ficando na prateleira. Agora mesmo, estamos a escrever um projeto.<\/p>\n<p class=\"p1\"><em><b>PV: Qual foi o projeto mais desafiante da sua carreira?<\/b><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>JVL:<\/strong> N\u00e3o consigo responder a tal, pois eu meto-me nas coisas um pouco por \u00edmpeto e \u00e0s vezes sou conhecido por n\u00e3o avaliar os riscos. Um bom exemplo disso \u00e9 que, estando habituado a cozinhar s\u00f3 para mim ou para outra pessoa, <span class=\"s1\">um dia decidi cozinhar para 100 e depois passei a fazer isso com bastante frequ\u00eancia, tipo 6 a 7 vezes por ano. Aconteceu assim:<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\">Eu estava ligado, apesar de ser agn\u00f3stico, a um centro da Companhia de Jesus aqui no Porto onde acabei por estar relacionado com uma s\u00e9rie de projetos e ao espa\u00e7o em si, que \u00e9 muito aberto a todas as pessoas com todas a cren\u00e7as religiosas. A determinada altura, tive uma conversa com o diretor, o Padre Vasco Pinto Magalh\u00e3es, no seguimento de uns cursos ao fim de semana. Afinal de contas, sempre manifestei uma certa queda para as din\u00e2micas de grupo &#8211; tal como j\u00e1 puderam ver a partir daquilo que fa\u00e7o com voc\u00eas, alunos, com os TPC\u2019s no fim de semana. Resumindo, eu achava que era um desperd\u00edcio de oportunidade virem tantas pessoas de tantos s\u00edtios fazerem as sess\u00f5es e depois na hora de almo\u00e7o irem cada uma para o seu lado, n\u00e3o se conhecendo ou trocando impress\u00f5es. Portanto, propus ao Padre Vasco a ideia de se fazer o almo\u00e7o l\u00e1, no espa\u00e7o do CREU-IL, ao que ele evidenciou a dificuldade e questionou quem seria a pessoa a chegar-se \u00e0 frente para tal. Eu, que gosto muito de cozinhar, prontamente disse: \u00abah, eu posso fazer!\u00bb. Fui completamente irrespons\u00e1vel. Assim foi, cobr\u00e1vamos 300 escudos a cada pessoa (1 euro e meio) e serv\u00edamos o almo\u00e7o. Fiquei durante alguns anos, e com bastante frequ\u00eancia, como cozinheiro oficial. Pronto, \u00e9 daquelas coisas que basta as pessoas se mentalizarem, que conseguem fazer.<\/p>\n<p class=\"p3\">Outro projeto do g\u00e9nero, grande, de que vos possa falar, foi o que comecei e depois desenvolvi com ajuda do Sim\u00e3o Meneses, em que desenvolvemos uma aplica\u00e7\u00e3o <i>open source<\/i>. Se foi dif\u00edcil? N\u00e3o digo que foi, mas com muito trabalho consegue-se quase tudo. \u00c9 das tais coisas, tamb\u00e9m a viagem muito rom\u00e2ntica em \u00c1frica me deixou as costas numa l\u00e1stima, pois como podem imaginar 10000 km de jipe em terra picada \u00e9 muito duro, mas&#8230;faz parte.<\/p>\n<p class=\"p1\"><em><b>PV: Que \u201cdicas\u201d pode dar aos alunos do nosso curso, Engenharia F\u00edsica e F\u00edsica, que pretendam seguir a \u00e1rea mais computacional?<\/b><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>JVL:<\/strong> Eu tenho muita dificuldade, ali\u00e1s, isso \u00e9 uma coisa que me faz pensar muito, em perceber os problemas que os alunos apresentam na \u00e1rea dos computadores.<\/p>\n<p class=\"p1\">Eu tive uma experi\u00eancia muito precoce com a programa\u00e7\u00e3o, talvez aos 11 anos ainda nuns computadores em BASIC. Na altura n\u00e3o tinha um computador, pelo que era uma casa p\u00fablica, no Instituto Portugu\u00eas da Juventude. Como n\u00e3o pude mais praticar, depois ficou adormecido durante muitos anos at\u00e9 entrar na universidade e, no 3\u00ba ano, voltar a ter experi\u00eancia. Contudo, eu acho que esse contacto em tenra idade fez com que, de facto, eu n\u00e3o estranhasse o ato de dar ordens ao computador. Achei sempre muito natural e, portanto, ainda hoje me surpreendo um bocadinho com os estudantes, com a sensa\u00e7\u00e3o de que t\u00eam a passar alguma barreira.<\/p>\n<p class=\"p1\">Que conselho posso dar? Ao longo destes anos que eu tenho ensinado nessa \u00e1rea \u2013 e j\u00e1 a ensinei em v\u00e1rios contextos, n\u00e3o s\u00f3 aqui \u2013 v\u00e1rias vezes observei que as pessoas resistem muito e dizem que t\u00eam muita dificuldade, que n\u00e3o percebem, que isto e que aquilo. Reclamam muito. Curiosamente, passando depois 2 ou 3 anos em que, por motivos profissionais precisam mesmo, de repente j\u00e1 fazem, j\u00e1 acontecem, e elas pr\u00f3prias dizem \u00abn\u00e3o percebo porque \u00e9 que tinha aquelas dificuldades, porque isto at\u00e9 \u00e9 f\u00e1cil\u00bb.<\/p>\n<p class=\"p1\">Portanto, se as pessoas sentem que t\u00eam dificuldades, o meu conselho \u00e9 que procurem os docentes. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na computa\u00e7\u00e3o, \u00e9 em todas as \u00e1reas. Procurem os professores, frequentem os hor\u00e1rios de atendimento e gastem tempo efetivo a trabalhar.<\/p>\n<p class=\"p1\">A programa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma linguagem e, como todas as outras, tem de ser treinada. O motivo pelo qual eu adotei o <em>J<\/em><i>upyter<\/i> para usar aqui nas minhas aulas \u00e9 por ele ser iminentemente interativo e, portanto, permitir que uma pessoa que n\u00e3o tem a certeza de uma sintaxe, possa, numa c\u00e9lula mais abaixo, experiment\u00e1-la, fazer um ciclo em que imprime os \u00edndices para ter a certeza de onde \u00e9 que come\u00e7a o qu\u00ea, onde \u00e9 que termina e como \u00e9 que \u00e9. Essa abordagem quase experimental de lidar com um computador \u00e9 extremamente eficiente e, portanto, as pessoas tendem a ganhar mais flu\u00eancia. Por\u00e9m, t\u00eam que fazer esse investimento. Enquanto n\u00e3o fizerem, n\u00e3o v\u00e3o passar a barreira de energia e, portanto, v\u00e3o ter sempre a dificuldade em dar o passo em frente. E o que \u00e9 que aconteceu nos casos que eu vos referi h\u00e1 pouco? \u00c9 que por motivos profissionais tiveram que gastar o tempo, porque tiveram mesmo que fazer e, de repente, depois de gastarem o tempo, as coisas come\u00e7aram a fazer mais sentido e as dificuldades a serem ultrapassadas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Logo, eu n\u00e3o acho que para o n\u00edvel zero da programa\u00e7\u00e3o, como dominar a linguagem ou fazer um conjunto de instru\u00e7\u00f5es e algoritmos <i>standard, <\/i>seja preciso mais do que isso, muito honestamente.<\/p>\n<p class=\"p1\">Agora, h\u00e1 outro n\u00edvel, que \u00e9 o n\u00edvel de uma pessoa que quer fazer carreira ligada \u00e0 programa\u00e7\u00e3o, que quer resolver problemas complicados usando a programa\u00e7\u00e3o, quer eventualmente fazer <i>high-performance computing<\/i> ou estar na linha da frente da efici\u00eancia, para obter os resultados mais precisos, os maiores tamanhos, seja o que for.<\/p>\n<p class=\"p3\">Isso acontece muitas vezes aqui na F\u00edsica, e eu a\u00ed, aquilo que digo \u00e9 que as pessoas t\u00eam de gostar realmente do computador, perceber o que \u00e9 que ele \u00e9 \u2013 uma m\u00e1quina, como \u00e9 que se lida com ele, como \u00e9 que ele faz as contas e como \u00e9 que se usa o que se sabe sobre ele de maneira a extrair o m\u00e1ximo de efici\u00eancia e o m\u00e1ximo de <i>performance<\/i>. Idealmente, eu tenho que olhar para a conta que fa\u00e7o no computador, exatamente como a conta que fa\u00e7o analiticamente, e perceber que \u00e9 a mesma coisa, s\u00e3o duas faces da mesma moeda.<\/p>\n<p class=\"p1\"><em><b>MM: O professor disse que entrou em contacto com a programa\u00e7\u00e3o desde cedo. Como \u00e9 que, posteriormente, se envolveu mais?<\/b><\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>JVL:<\/strong> Como quase tudo que acontece na nossa vida, foi completamente aleat\u00f3rio ou muito pr\u00f3ximo disso. Depois de terminar a licenciatura, eu ia trabalhar com o Professor Jos\u00e9 Fernando Mendes, mas veio o Professor Yuri, na altura com uma bolsa tempor\u00e1ria de cientista convidado. O Professor Bessa disse-me que seria interessante que, enquanto o Professor Yuri Pogorelov estivesse c\u00e1, houvesse um estudante que trabalhasse com ele, e que como era por um tempo curto seria uma boa oportunidade para mim. Na altura, pareceu-me razo\u00e1vel e acabei por come\u00e7ar a trabalhar com o Professor Yuri. Ele n\u00e3o fazia praticamente nenhum trabalho num\u00e9rico, mas queria fazer. Ent\u00e3o, como eu sabia um bocadinho, por ter tido a disciplina, naturalmente podia come\u00e7ar a fazer os programas.<\/p>\n<p class=\"p1\">O que me empurrou definitivamente para a computa\u00e7\u00e3o foi o facto de ele n\u00e3o perceber muito assunto e por isso deu-me um problema extremamente dif\u00edcil. Portanto, eu desde essa primeira experi\u00eancia fui empurrado para c\u00e1lculos num\u00e9ricos que demoravam dias e punham dezenas de computadores a trabalhar. Ent\u00e3o, comecei desde muito cedo a encontrar estrat\u00e9gias para conseguir fazer contas porque n\u00e3o tinha os recursos necess\u00e1rios para as fazer. Isso obrigava-me a ter a certeza de que os algoritmos que usava eram os mais r\u00e1pidos que eram poss\u00edveis de utilizar para aquele problema, por um lado, e, por outro, a gerir recursos.<\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00f3s na altura n\u00e3o t\u00ednhamos um <i>cluster<\/i> e eu arranjei um estratagema legal para ser a pessoa que na faculdade tinha mais RAM e CPU. Isso eu acho que \u00e9 uma coisa muito interessante que a mim me fascina: as pessoas viviam num paradigma em que se compravam m\u00e1quinas que custavam 50.000 \u20ac, assim como as SGIs ou as HP em Unix propriet\u00e1rios. N\u00f3s t\u00ednhamos tr\u00eas no nosso departamento. Ent\u00e3o, todas as pessoas que faziam c\u00e1lculo num\u00e9rico usavam aquelas m\u00e1quinas. S\u00f3 que a tecnologia tinha evolu\u00eddo muito rapidamente naqueles anos e, na pr\u00e1tica, os i486 da Intel que n\u00f3s t\u00ednhamos na sala de alunos l\u00e1 em baixo eram t\u00e3o r\u00e1pidos quanto os outros. S\u00f3 que ningu\u00e9m sabia. As pessoas pura e simplesmente n\u00e3o se apercebiam e estavam ainda focadas naquelas m\u00e1quinas muito caras que estavam ali h\u00e1 j\u00e1 quatro ou cinco anos.<\/p>\n<p class=\"p1\">Eu lembro-me de que havia na Faculdade de Ci\u00eancias tr\u00eas ou quatro salas, cada uma teria cerca de trinta computadores e, portanto, voc\u00eas v\u00eaem que eu tinha imensas m\u00e1quinas. Assim, rapidamente comecei a aprender a programar em paralelo, a lan\u00e7ar processos remotamente nas m\u00e1quinas e a fazer <i>scripts<\/i> de <i>shell <\/i>para gerir toda essa distribui\u00e7\u00e3o de trabalho que depois gerava ficheiros que tinham de ser processados. Havia todo um trabalho, n\u00e3o s\u00f3 era preciso escrever a conta, era tamb\u00e9m necess\u00e1rio depois partir tudo em bocadinhos, passando a ser um trabalho mais de Engenharia. Comecei a envolver-me nisso muito cedo e naturalmente a necessidade obriga-nos a aprender rapidamente, a gerir sistemas operativos. Muito pouco tempo depois, eu j\u00e1 era capaz de ser gestor de sistema: era eu que mantinha aqui no Centro de F\u00edsica a gest\u00e3o e a instala\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas, a configura\u00e7\u00e3o quer das redes, das \u00e1reas partilhadas de disco, etc&#8230; A partir disso, fiz sites, bases de dados, constru\u00ed <i>Clusters<\/i> com os respectivos sistemas de <i>queues<\/i>, entre outros. Portanto, houve um percurso tecnol\u00f3gico do ponto de vista do dom\u00ednio de uma s\u00e9rie de compet\u00eancias que vai muito para al\u00e9m da F\u00edsica, mas come\u00e7ou por acaso, com uma sugest\u00e3o mal programada de um professor a um aluno, de certa maneira. Mas a vida \u00e9 assim.<\/p>\n<p class=\"p3\"><em><b>Martim Carvalho (MC): O que dizem os seus olhos?<\/b><\/em><\/p>\n<p class=\"p3\"><strong>JVL:<\/strong> Hoje dizem imenso sono &#8211; dormi s\u00f3 quatro horas.<\/p>\n<p class=\"p3\"><em><strong>MC:<\/strong> Ao longo dos anos, n\u00e3o dizem sono, pois n\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p class=\"p3\"><strong>JVL:<\/strong> N\u00e3o, apesar de eu por norma dormir relativamente pouco. Acho que normalmente dizem curiosidade, ali\u00e1s, eu h\u00e1 pouco, quando falei de \u00c1frica, n\u00e3o mencionei uma coisa que para mim \u00e9 relativamente importante, que \u00e9 o estar extremamente atento \u00e0s pessoas e \u00e0 sociedade, a tudo o que me rodeia. Por norma, essa curiosidade faz com que eu goste muito de tudo, ou seja, eu nunca estive num s\u00edtio em que eu dissesse \u00abeu n\u00e3o gosto nada deste s\u00edtio nem destas pessoas\u00bb porque eu acho sempre piada a alguma coisa. H\u00e1 sempre algo que me faz gostar. Nuns s\u00edtios \u00e9 uma coisa, noutros \u00e9 outra, e isso tem a ver com a enorme predisposi\u00e7\u00e3o para se estar curioso, olhar e apreciar a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p3\"><em><strong>PV:<\/strong> Ver o lado positivo&#8230;<\/em><\/p>\n<p class=\"p3\">JVL: Eu n\u00e3o diria ver o lado positivo, \u00e9 mais b\u00e1sico do que isso. \u00c9 curiosidade de perceber porque \u00e9 que \u00e9 assim e por que \u00e9 diferente noutro lado, e o que \u00e9 que justifica isto e aquilo. Ali\u00e1s, acho que as pessoas que lidam comigo na base di\u00e1ria s\u00e3o permanentemente massacradas com uma constante formula\u00e7\u00e3o de teorias para tentar explicar quest\u00f5es sociais, ou porque \u00e9 que somos assim ou assado, rela\u00e7\u00f5es\u2026 E tem a ver com isso, tem a ver com a curiosidade permanente de questionar. Isso \u00e9 muito importante. Quando eu olho, por exemplo, para Angola, que \u00e9 o pa\u00eds que eu conhe\u00e7o melhor, ou para a Alemanha, que tamb\u00e9m \u00e9 outro s\u00edtio onde vivi, vejo a natureza humana presente, ou seja, n\u00e3o acho que seja t\u00e3o diferente estar em \u00c1frica ou na Alemanha, s\u00e3o faces da mesma moeda, diferentes estados, diferentes contextos hist\u00f3ricos, mas encontro uma uni\u00e3o nisso tudo. Ao mesmo tempo, as diferen\u00e7as cativam-nos. Portanto, \u00e9 um bocadinho essa paix\u00e3o de entender. \u00c9 um v\u00edcio.<\/p>\n<p class=\"p3\"><em><strong>MC:<\/strong> Acho que \u00e9 algo muito presente nos f\u00edsicos, somos todos muito curiosos por perceber as coisas.<\/em><\/p>\n<p class=\"p3\"><em><strong>PV:<\/strong> A minha m\u00e3e diz que eu passei uma fase horr\u00edvel dos \u201cporqu\u00eas\u201d. Era muito curiosa, mas foi uma fase enorme.<\/em><\/p>\n<p class=\"p3\"><em><strong>MC:<\/strong> Que ainda n\u00e3o passou.<\/em><\/p>\n<p class=\"p3\"><strong>JVL:<\/strong> Ali\u00e1s, eu at\u00e9 gosto de pensar dessa maneira com a nossa profiss\u00e3o. Para a maioria das pessoas, muitos dos problemas que nos ocupam a cabe\u00e7a, \u00e0s vezes meses, s\u00e3o irrelevantes, e, portanto, de certa maneira \u00e9 quase como se fosse uma doen\u00e7a. Somos assim, queremos tentar perceber. Eventualmente n\u00e3o tem relev\u00e2ncia nenhuma, mas enquanto n\u00e3o percebermos, n\u00e3o descansamos, e acho que isso \u00e9 uma caracter\u00edstica que pode estar presente em alguns perfis aqui em ci\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista por Patr\u00edcia Vieira, Mafalda Matos e Martim Carvalho ao Professor Jo\u00e3o Viana Lopes Patr\u00edcia Vieira (PV): O que pode dizer do seu percurso acad\u00e9mico e da sua evolu\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da F\u00edsica? Jo\u00e3o Viana Lopes (JVL): Basicamente, o meu percurso foi todo aqui nesta casa. 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