{"id":782,"date":"2019-05-18T13:46:44","date_gmt":"2019-05-18T13:46:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/?page_id=782"},"modified":"2019-05-22T21:54:04","modified_gmt":"2019-05-22T21:54:04","slug":"professor-jose-manuel-moreira","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.fc.up.pt\/physikup\/professor-jose-manuel-moreira\/","title":{"rendered":"Professor Jos\u00e9 Manuel Moreira"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista pela Mafalda Matos ao Professor Jos\u00e9 Manuel Moreira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i><span class=\"Apple-tab-span\"><strong>Mafalda Matos<\/strong>:\u00a0<\/span>O que o fez decidir que queria ser professor?<\/i><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"><\/span><strong>Jos\u00e9 Moreira<\/strong>: &#8220;Eu diria que ser professor, no meu caso, n\u00e3o foi propriamente dito uma decis\u00e3o, talvez tenha sido uma casualidade ter seguido esse caminho. No liceu, sempre gostei de tentar (dentro das minhas possibilidades) ajudar os meus colegas face a algumas dificuldades que tinham em diversas \u00e1reas da aprendizagem. Nessa altura, reparei que, com exemplos interessantes e eficazes, fruto das minhas leituras complementares, conseguia bons resultados. Comecei a dar explica\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 porque gostava, mas tamb\u00e9m porque aproveitava algum dinheiro extra. Fui-me apercebendo que at\u00e9 tinha aptid\u00f5es para ensinar.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>Entretanto, entrei na Faculdade, para o curso de Engenharia Eletrot\u00e9cnica (que na altura estava um pouco em voga), na \u00e1rea das telecomunica\u00e7\u00f5es com o intuito de posteriormente entrar numa empresa. Contudo, ap\u00f3s finalizado o primeiro ano, recebi um convite do Departamento de F\u00edsica para ficar como assistente livre (figura que hoje j\u00e1 n\u00e3o existe e que consistia em prestar colabora\u00e7\u00e3o n\u00e3o remunerada ao Departamento). Apesar de tudo, tal alegrou-me, pois deu-me expectativas de um dia mais tarde seguir por um caminho de doc\u00eancia e investiga\u00e7\u00e3o na Universidade. Fui muito bem acolhido, principalmente pelo professor Jo\u00e3o Ant\u00f3nio Bessa Menezes e Sousa, que me integrou dentro do seu grupo de trabalho e investiga\u00e7\u00e3o. Est\u00e1vamos no in\u00edcio, t\u00ednhamos poucos recursos, poucos aparelhos de medida, mas muita vontade de come\u00e7ar a investigar e de obter publica\u00e7\u00f5es que conferissem proje\u00e7\u00e3o internacional. Tal percurso levou-me a perceber que a minha voca\u00e7\u00e3o estava, de facto, na doc\u00eancia e investiga\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i><strong>MM<\/strong>: Qual foi o projeto\/desafio que mais gostou de fazer na sua carreira?<\/i><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"><\/span><strong>JM<\/strong>: &#8220;Como j\u00e1 disse anteriormente, eu estava numa fase de forma\u00e7\u00e3o em que os recursos eram muito escassos, n\u00e3o havendo grande n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es. Entretanto, tive a oportunidade de por iniciativa do professor Jo\u00e3o Bessa, me deslocar a Fran\u00e7a, por um per\u00edodo de aproximadamente um m\u00eas. Fiz um est\u00e1gio no grupo do professor Albert Fert (que foi posteriormente pr\u00e9mio Nobel da F\u00edsica 2007). Na altura eu estava interessado em estudar uma propriedade muito importante na F\u00edsica, denominada efeito Hall e conhecer a sua correla\u00e7\u00e3o com o magnetismo ex\u00f3tico, que existe em ligas de terras raras, cujas propriedades variam acentuadamente com a percentagem de terras raras na liga. Tive ajuda de um estudante de doutoramento jugoslavo, Amir Hamzi\u010d, que estava no grupo do professor Fert.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Regressei ao Porto com a inten\u00e7\u00e3o de p\u00f4r em pr\u00e1tica, nos nossos laborat\u00f3rios, tudo o que tinha aprendido em Fran\u00e7a. Foi sem d\u00favida um desafio extraordin\u00e1rio! Claro est\u00e1 que n\u00e3o foi nada f\u00e1cil, havia dias muitos frustrantes, mas tamb\u00e9m dias de muita alegria, quando finalmente consegu\u00edamos ultrapassar as dificuldades \u2013 fa\u00e7o notar que na altura o uso de computa\u00e7\u00e3o era incipiente, era tudo feito \u00e0 base de colheita manual de dados e de gr\u00e1ficos em papel milim\u00e9trico. Foi sem d\u00favida um dos meus maiores desafios. Esse equipamento serviu posteriormente para a explora\u00e7\u00e3o igualmente da propriedade f\u00edsica denominada magnetorresist\u00eancia. Tive igualmente colabora\u00e7\u00f5es muito interessantes com a Inglaterra, a B\u00e9lgica, a Espanha, entre outros pa\u00edses.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><i><strong>MM<\/strong>: Mencionou que o departamento estava no in\u00edcio da investiga\u00e7\u00e3o, pode elaborar?<\/i><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"><\/span><strong>JM<\/strong>: &#8220;Havia j\u00e1 trabalhos de relaxa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica, na resistividade de materiais \u00e0 base de cobre e prata. Contudo, a precis\u00e3o das medidas da tens\u00e3o el\u00e9trica que surgia nos terminais das amostras ainda n\u00e3o era a ideal. Era necess\u00e1rio melhor\u00e1-la, para procurar obter as derivadas da resistividade em ordem \u00e0 temperatura e ao tempo resultantes dessas relaxa\u00e7\u00f5es t\u00e9rmicas e que s\u00e3o essenciais para o estudo detalhado de par\u00e2metros f\u00edsicos muito relevantes na an\u00e1lise cr\u00edtica dessas propriedades.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>Por\u00e9m, muito rapidamente, conseguimos ir comprando aparelhos que iam at\u00e9 \u00e0 cent\u00e9sima do microvolt, o que n\u00e3o chegava ainda para o efeito Hall, que necessitava de melhor resolu\u00e7\u00e3o em tens\u00e3o (nanovolt). Ent\u00e3o comecei a utilizar os chamados Phase Sensitive Detectors (PSD \u2013 detetores sens\u00edveis \u00e0 fase que tinham sido lan\u00e7ados no mercado), que eram dispositivos que recolhiam sinais em fase com a entrada e que, portanto, permitiam eliminar muitos dos problemas de ru\u00eddo que surgiam nas medidas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>Nessa \u00e9poca, o comportamento do efeito Hall em materiais magn\u00e9ticos ainda era muito mal interpretado fisicamente, e foi exatamente o professor Fert que conseguiu dar uma explica\u00e7\u00e3o completa de como se fazia a extra\u00e7\u00e3o das componentes ordin\u00e1ria e extraordin\u00e1ria desse efeito. Por\u00e9m, n\u00e3o foi s\u00f3 na teoria que foi feito um grande esfor\u00e7o. O avan\u00e7o tecnol\u00f3gico referido anteriormente resultou numa contribui\u00e7\u00e3o minha muito importante: montar o esperado dispositivo que permitia fazer boas medidas em fun\u00e7\u00e3o da temperatura e em fun\u00e7\u00e3o do campo magn\u00e9tico aplicado com a resolu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria (nanovolt, como j\u00e1 disse anteriormente). T\u00ednhamos um magneto permanente que conseguia atingir, em varrimento, at\u00e9 aproximadamente 1 T.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>Posteriormente, houve nesta \u00e1rea um outro grande desafio no Departamento: a implementa\u00e7\u00e3o do sistema de campos magn\u00e9ticos pulsados, que permitiu que se obtivessem campos da ordem de 27 T, algo j\u00e1 bastante significativo a n\u00edvel mundial. Pulsados, significa que t\u00eam uma dura\u00e7\u00e3o muito pequena em tempo (no nosso caso na ordem de 1s). A implementa\u00e7\u00e3o do sistema no Departamento foi conseguida exatamente trazendo um t\u00e9cnico de Toulouse altamente especializado. S\u00f3 para dar uma ideia, os recordes de campos magn\u00e9ticos pulsados em Fran\u00e7a, (Toulouse \u2013 melhor centro da Europa de campos pulsados), \u00e9 da ordem dos 60 T. Trata-se de uma unidade muito grande e comparticipada monetariamente por v\u00e1rios pa\u00edses. H\u00e1 ali, digamos, uma colabora\u00e7\u00e3o grande, por ser quase imposs\u00edvel um s\u00f3 pa\u00eds conseguir ter dinheiro para administrar toda a estrutura. Depois, cada um dos pa\u00edses que \u00e9 filiado pode levar investigadores, desde que o trabalho por eles proposto seja previamente aprovado.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>Eu cheguei a beneficiar de v\u00e1rias desloca\u00e7\u00f5es a Toulouse ao abrigo dessas colabora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>Existem alguns campos magn\u00e9ticos destrutivos que chegam aos 500 T (normalmente em laborat\u00f3rios japoneses). Em cada, experi\u00eancia todo o equipamento, bobinas e amostras, s\u00e3o destru\u00eddas sendo necess\u00e1rio proteger todo o ambiente em volta dessas explos\u00f5es. Note-se que as for\u00e7as envolvidas nas bobinas crescem com o quadrado do valor do campo magn\u00e9tico. Assim, para passar de 1 para 500 T a for\u00e7a \u00e9 250.000 vezes maior. De 25 para 500 T o quociente das for\u00e7as envolvidas \u00e9 400. Este \u00e9 um grande problema no projeto das bobinas criadoras do campo. Por outro lado, o arrefecimento das bobinas ap\u00f3s cada tiro \u00e9 essencial para baixar a temperatura destas, resultante do efeito Joule gerado, e permitir novo tiro. Tal s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se o sistema estiver rodeado de azoto ou h\u00e9lio l\u00edquido, em regime de utiliza\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Posteriormente, muitos dos nossos alunos de doutoramento e investigadores tiveram acesso a desloca\u00e7\u00f5es, mais ou menos duradouras, a laborat\u00f3rios de n\u00edvel internacional onde conseguiram uma aprendizagem cada vez mais exigente.\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><i><strong>MM<\/strong>: Qual \u00e9 a origem dos nomes dos seus c\u00e3es? <\/i><\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"><\/span><strong>JM<\/strong>: &#8220;A origem dos nomes dos meus c\u00e3es \u00e9 algo de muito engra\u00e7ado, porque todos eles t\u00eam dois nomes, o pr\u00f3prio e o apelido, porque eu sempre aprendi que, como dizia o J\u00f4 Soares (comediante brasileiro): O que \u00e9 um paturso? \u00c9 o filho de um pato e de um urso. Ent\u00e3o, eu decidi por dois nomes, pois geralmente associo o nome do c\u00e3o a uma coisa de que gosto, ou que me marcou de alguma maneira, ou que est\u00e1 ligada \u00e0 hist\u00f3ria, ou ao cinema, ou \u00e0 m\u00fasica\u2026<\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>\u00c9 poss\u00edvel haver algumas cr\u00edticas aos nomes que eu escolhi, e eu reconhe\u00e7o isso, pois em certos casos as personagens envolvidas s\u00e3o exc\u00eantricas. Ent\u00e3o, vamos l\u00e1 ver. Eu tenho um macho<i> small<\/i> (tipo S), que \u00e9 o mais velho (de 16 anos), e uma cadela, <i>medium<\/i> (tipo M), com cerca de 5 anos. Atualmente, tenho tamb\u00e9m um macho <i>large<\/i> (tipo L), que tem s\u00f3 6 meses e \u00e9 um espect\u00e1culo. Ele \u00e9 um lobo aut\u00eantico, tem olhos pretos e \u00e9 todo branquinho. Eu n\u00e3o sei que ra\u00e7a \u00e9 aquela, nem ningu\u00e9m sabe, nem mesmo o veterin\u00e1rio que trata dele.<span class=\"s1\"> <\/span>Agora estou \u00e0 procura de ter um <i>very large<\/i> (tipo XXL), um Mastim do Tibete vermelho que \u00e9 o triplo ou o quadruplo do S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>O mais velho \u00e9 o Billy Afonso. Billy porque eu sempre gostei muito do <i>Billy the Kid<\/i>, um her\u00f3i da banda desenhada que em alguns aspetos era um pouco vil\u00e3o, mas que tinha tamb\u00e9m um bom cora\u00e7\u00e3o. Eu achei que o Billy era um bocado assim, um pouco vil\u00e3o, pois \u00e0s vezes era resmung\u00e3o, mas muito meigo. Ele \u00e9 um pequin\u00eas falso, castanho dourado muito belo. Afonso porque eu gosto muito dos Afonsos &#8211; foram reis de Portugal que desenvolveram muito o pa\u00eds e criaram as ordens afonsinas. Portanto, serve este nome para lembrar a hist\u00f3ria de Portugal at\u00e9 ao rei D. Afonso V que segundo a Hist\u00f3ria prestaram bons servi\u00e7os ao pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>Agora falemos da menina. Como eu gosto muito de meninas a cantar, eu decidi dar-lhe o nome de Cuca Maria. Em Portugal, existem muitas Marias, a minha m\u00e3e era Maria, a minha irm\u00e3 \u00e9 Maria, uma das minhas filhas \u00e9 Maria, a minha mulher \u00e9 Maria, e ent\u00e3o dei-lhe o nome de Maria. Escolhi Cuca, porque eu gosto da Cuca Roseta, que \u00e9 uma fadista que tem categoria. N\u00e3o \u00e9 o estilo de m\u00fasica de que gosto mais, mas \u00e9 pelo menos um estilo de m\u00fasica que \u00e9 \u00fanico no mundo, e, portanto, \u00e9 muito apreciado e \u00e9 emblem\u00e1tico para Portugal.<\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span>Ao mais novo pus o nome de dois cantores, um deles de que gosto muito, \u00e9 o Prince, embora, como costumo dizer, alguns aspetos da sua vida n\u00e3o sejam os mais aconselh\u00e1veis &#8211; mas enfim, s\u00e3o modos de vida. O segundo nome \u00e9 Marley, que como sabem tinha uma ideologia e um modo de viver um pouco fora da sociedade tradicional, e uma filosofia que eu acho particularmente interessante. Al\u00e9m disso, eu gosto muito da m\u00fasica do Bob Marley (rei do <i>Reggae<\/i>), e, portanto, decidi chamar o mais novo de Prince Marley.<\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"Apple-tab-span\"> <\/span> A m\u00fasica, para mim, cont\u00e9m todas as facetas poss\u00edveis de encontrar na sociedade, na fam\u00edlia, enfim, no mundo.\u201d<\/p>\n<p class=\"p8\" style=\"text-align: justify;\"><i><strong>MM<\/strong>: Preferia nunca mais ver\/jogar bilhar ou nunca mais conseguir um selo novo?<\/i><\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\"><strong>JM<\/strong>: \u201cBom, trata-se para mim de um grande problema a que com dificuldade tentarei responder. Esses s\u00e3o os meus dois grandes <i>hobbies<\/i> e eu tentarei explic\u00e1-los em detalhe.<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\">Relativamente aos selos, coleciono-os desde os quatro anos de idade. Recordo-me perfeitamente, o dia em que o meu pai chegou a casa e me disse: \u201ctenho um amigo meu no emprego que \u00e9 um bom colecionador de selos de Portugal e ele sabe (porque lhe contei) que tu gostas de tudo o que s\u00e3o cole\u00e7\u00f5es\u201d. Na realidade, colecionava muitos cromos de animais, rebu\u00e7ados que tinham embalagens com desenhos variados, do Ben-Hur, de filmes, de vegetais, at\u00e9 mesmo pacotes de a\u00e7\u00facar. Eu comprava as cadernetas correspondentes e colava os exemplares que tinha. Colecionei igualmente minerais, folhas e ra\u00edzes de plantas, f\u00f3sseis que colhia em terrenos onde sabia que existiam\u2026<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\">Portanto, como j\u00e1 disse, sempre gostei muito de colecionar e ent\u00e3o o meu pai sugeriu-me ir a casa do amigo para ele me mostrar a cole\u00e7\u00e3o que tinha. Todos os selos estavam devidamente guardados dentro de envelopezinhos transparentes.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Permitiu-me que eu escolhesse o que quisesse dentro dos repetidos que tinha. Trouxe algumas centenas e a partir da\u00ed criei o bichinho mal\u00e9fico da filatelia. Nunca mais deixei este v\u00edcio. Sempre que tinha uma prenda monet\u00e1ria de anos ou qualquer trabalho realizado, e me deslocava ao Porto ou a Lisboa, comprava as minhas cole\u00e7\u00f5ezinhas. Desenvolvi a cole\u00e7\u00e3o e comecei a aprender. Talvez o \u00fanico assunto de que sei alguma coisa em profundidade [risos] \u00e9 a filatelia. Agora com o desenvolvimento dos contactos e compras via internet e interc\u00e2mbios, a minha cole\u00e7\u00e3o melhorou muito nos \u00faltimos anos. Portanto neste momento tenho uma bonita cole\u00e7\u00e3o e ficaria muito triste se n\u00e3o conseguisse arranjar o tal selo que eu ainda n\u00e3o tenho.<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\">Os selos cont\u00eam toda a quantidade de informa\u00e7\u00e3o das culturas dos povos e \u00e9 poss\u00edvel para um <i>expert<\/i> identific\u00e1-los mesmo n\u00e3o olhando para o pa\u00eds de origem. Por exemplo, os selos n\u00f3rdicos s\u00e3o todos ou quase todos monocrom\u00e1ticos. Os selos de \u00c1frica t\u00eam quase todos cores extremamente berrantes, como acontece ali\u00e1s nas suas bandeiras. Os do M\u00e9dio Oriente s\u00e3o de um tipo completamente diferente, porque est\u00e1 ali a cultura do povo. \u00c9 por isso que eu gosto muito de filatelia, porque aprendo os mais variados temas. Passa-se em revista desde a religi\u00e3o, aos costumes, \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es importantes, aos congressos, \u00e0s inven\u00e7\u00f5es, aos homens c\u00e9lebres, etc. Tudo est\u00e1 l\u00e1, tudo o que for relevante aparece num selo. Isto \u00e9 uma primeira coisa, de que gosto imenso.<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\">Depois existe uma outra que \u00e9 o desporto. Sou um grande apreciador de desporto porque desde muito novo acompanhei o meu pai que era diretor desportivo do CAT (Centro de Alegria no Trabalho) da APDL (Administra\u00e7\u00e3o dos Portos de Leix\u00f5es). Tinha todas as modalidades, desde futebol a andebol, basquetebol, atletismo e corta-mato. Acompanhava o meu pai para todos os lados, logo de manh\u00e3 cedinho, para ir ver essas atividades desportivas. Voleibol, por exemplo, cheguei a jogar alguns campeonatos de praia. Passava o meu ver\u00e3o a jogar na praia de Le\u00e7a e sempre que podia fazia um desafiozinho de futebol. Gostei muito de futebol. Hoje em dia acho que o futebol est\u00e1 muito conspurcado e que socialmente n\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel como era. Recordo-me que o meu pai convidava os jogadores e me levava a mim para, como pr\u00e9mio de vit\u00f3ria num jogo, comer um bife com batatas fritas, azeitonas e uma caneca de vinho, no restaurante Castanheira em Matosinhos. Ou seja, na realidade o que se verificava era que havia mais amor \u00e0 camisola e menos amor ao dinheiro. Hoje em dia, o que acontece \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\">Porque \u00e9 que eu escolhi o bilhar como desporto preferido? Eu escolhi o bilhar porque exige que se pense o modo como se quer proceder ao longo do jogo. Joguei tamb\u00e9m xadrez, mas nunca tive grande aptid\u00e3o porque sou muito defensivo, n\u00e3o tenho intui\u00e7\u00e3o para atacar. Gosto imenso do bilhar porque aquilo \u00e9 geometria, \u00e9 dominar as bolas, ou seja, \u00e9 poss\u00edvel, dado que as colis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o perfeitamente el\u00e1sticas e existem atritos e efeitos que se podem dar na bola, fazer uma variedade muito grande de coisas maravilhosas. Em particular h\u00e1 o bilhar art\u00edstico (tivemos em Portugal bons executantes a n\u00edvel mundial). Comecei a treinar, a jogar, rapidamente subi de categorias, o que me fascinava. Contudo, cheguei a um dado ponto e tive de desistir, exatamente porque a investiga\u00e7\u00e3o na universidade e a categoria a que eu tinha chegado (em termos de presen\u00e7a em campeonatos) n\u00e3o me permitia conciliar o meu trabalho e as minhas aulas com o treino que era requerido. A partir de uma dada altura, para se ser um grande jogador, tem de se ser praticamente profissional e, portanto, eu tive de optar. O mesmo se passou no voleibol.<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\">Para ser um bom jogador de bilhar \u00e9 preciso ter pelo menos 8 horas de treino por dia. Acresce que os campeonatos s\u00e3o normalmente \u00e0 noite e extremamente demorados. H\u00e1 muito o aspeto defensivo (muitas vezes os jogos terminam \u00e0 uma ou duas da madrugada) o que impede no dia seguinte que se possa trabalhar cedo, com dec\u00eancia. Ainda de longe a longe, se me pedirem para jogar uma partida, eu jogo. Ainda agora tive o meu neto que me pediu para jogar com ele e eu disse-lhe \u201cquando chegar ao Porto eu vou jogar contigo\u201d. Em suma, o bilhar exige muita presen\u00e7a mental, muita rea\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o das adversidades. \u00c9 um jogo que \u00e9 absolutamente honesto porque n\u00e3o h\u00e1 praticamente possibilidade de interfer\u00eancia do \u00e1rbitro; se houver condi\u00e7\u00f5es e se formos melhores, \u00e0 priori, ganhamos e n\u00e3o interferimos com ningu\u00e9m. Nota-se que as pessoas que jogam bilhar a n\u00edvel de top s\u00e3o pessoas muito s\u00e9rias, muito honestas, e s\u00e3o eles pr\u00f3prios capazes de apontar \u201ceu cometi uma falta\u201d quando o \u00e1rbitro at\u00e9 nem a viu. Ainda h\u00e1 alguns dias vi isso na TV. O Mark Williams, que \u00e9 do top 10 do <i>ranking<\/i> mundial, a dizer ao \u00e1rbitro: \u201cisto foi falta porque eu toquei com o bra\u00e7o numa bola\u201d. Claro est\u00e1 que o \u00e1rbitro pode cometer um pequeno erro, mas nunca \u00e9 para prejudicar definitivamente um jogador porque isso dava demasiado nas vistas.\u201d<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\"><i><strong>MM<\/strong>: O que dizem os olhos dos seus c\u00e3es?<\/i><\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\"><strong>JM<\/strong>: \u201cNa verdade, este mundo \u00e9 fant\u00e1stico, eu vejo isso nos meus c\u00e3es. O respeito uns pelos outros \u00e9 uma coisa brutal e o c\u00e3o mais novo, que \u00e9 o maior de todos, respeita estritamente o mais velho, ou seja, basta o Billy ladrar um bocadinho que, o maior que \u00e9 o triplo ou quadruplo do seu tamanho, pisga-se logo e vai-se agachar cheio de medo porque sabe que ele est\u00e1 h\u00e1 muito mais tempo em casa e que \u00e9 ele que manda. Por outro lado, os animais t\u00eam uma vantagem: na realidade n\u00e3o exigem nada em troca, talvez s\u00f3 um bocadinho de comida. Eu posso cham\u00e1-los \u00e0s quatro da madrugada e eles est\u00e3o dispon\u00edveis para ir sair, estar ao meu lado ou qualquer coisa. Muitas pessoas, se n\u00f3s as chamarmos \u00e0 meia noite dizem \u201ctrata de ti, n\u00e3o me venhas chatear que eu estou a descansar\u201d. O animal \u00e9 bastante mais compreens\u00edvel nesse aspeto, ou pelo menos aparenta ser; n\u00e3o resmungando, n\u00e3o dizendo \u201cah, l\u00e1 vens tu incomodar-me outra vez\u201d. Pelo menos os meus c\u00e3es n\u00e3o incomodam nada a mim, antes pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o uma grande companhia.<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\">Para terminar esta amena conversa, chamo a aten\u00e7\u00e3o para um programa que existe na Antena 1 que se chama \u201cO Mundo Fant\u00e1stico\u201d. Na realidade este mundo \u00e9 qualquer coisa de fant\u00e1stico. Se n\u00f3s olharmos para variadas nuances, que todos os dias encontramos, para as pessoas originais, para uma Natureza que \u00e9 uma coisa grandiosa, podemos dizer que h\u00e1 na realidade um mundo fant\u00e1stico e que esse mundo fant\u00e1stico pode ser melhorado e ser devidamente aproveitado por n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"p10\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um outro programa da Antena 1 que se chama \u201cMove-te por valores\u201d. Est\u00e1 integrado na programa\u00e7\u00e3o de desporto no Domingo \u00e0 tarde e que d\u00e1 exemplos interessant\u00edssimos de que muitas vezes, mesmo com preju\u00edzo enorme para o pr\u00f3prio, vale sempre a pena fazer algo de positivo por outras pessoas que est\u00e3o em dificuldades. V\u00e1rios atletas j\u00e1 perderam medalhas em Olimp\u00edadas e corridas por essa raz\u00e3o. Essas pessoas t\u00eam um grande car\u00e1ter e n\u00e3o veem apenas o objetivo dos louros que poderiam obter, mas para ele o gesto que tomam \u00e9 primordial. Devemo-nos mover por valores, mesmo sabendo que nos podemos estar a prejudicar. A nossa consci\u00eancia fica, posteriormente, tranquila.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista pela Mafalda Matos ao Professor Jos\u00e9 Manuel Moreira Mafalda Matos:\u00a0O que o fez decidir que queria ser professor? Jos\u00e9 Moreira: &#8220;Eu diria que ser professor, no meu caso, n\u00e3o foi propriamente dito uma decis\u00e3o, talvez tenha sido uma casualidade ter seguido esse caminho. 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