Alumnus da FCUP premiado pela Sociedade Europeia de Astronomia

Depois da União Astronómica Internacional, a Sociedade Europeia de Astronomia reconhece também o trabalho inovador desenvolvido por André Silva no âmbito do Programa Doutoral em Astronomia.

O investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IAAndré Silvadoutorado em Astronomia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), acaba de conquistar o Prémio MERAC (Mobilising European Research in Astrophysics and Cosmology) para a Melhor Tese de Doutoramento em Astrofísica Observacional, atribuído pela Sociedade Europeia de Astronomia (EAS). O galardão reconhece o trabalho apresentado por este jovem astrofísico, que fornece novos avanços na extração de velocidades radiais precisa e permite a deteção de planetas com massa terrestre ou inferiores.

Desenvolvida no âmbito do Programa Doutoral em Astronomia da FCUP, a tese de André Silva, defendida em 2024, teve como orientadores os docentes da FCUP e investigadores do IA, Nuno Cardoso Santos e Pedro Viana e também o investigador Sérgio Sousa. Esta não é a primeira vez que o trabalho, intitulado “A new paradigm for the estimation of precise stellar radial velocities”, é premiado. Em 2025, o investigador do IA recebeu também o prémio de doutoramento da Divisão B da União Astronómica Internacional (IAU).

A tese agora duplamente premiada aborda uma das técnicas mais poderosas para deteção e caracterização de exoplanetas: o método das velocidades radiais. Nesta publicação, é feita uma análise de metodologias para extrair velocidades radiais ultra precisas a partir de espectros estelares obtidos com instrumentos de última geração, alcançando avanços em várias frentes. 

Uma tese de sucesso para a descoberta de novos exoplanetas

Um exemplo claro foi o desenvolvimento do s-BART, um algoritmo que utiliza uma nova abordagem estatística, baseada na ideia de que o movimento causado por planetas deve afetar todas as cores da luz estelar da mesma forma (acromaticidade). Esta ferramenta foi um sucesso entre a comunidade científica e foi prova disso a sua utilização por diversos consórcios internacionais. Teve, aliás, um papel central em campanhas de deteção de exoplanetas.

Mas há mais: André Silva descobriu também um viés até agora desconhecido nas análises que usam modelos de referência (“templates”). Este problema resulta de pequenos artefactos presentes nos modelos estelares, como linhas micro telúricas (pequenas absorções causadas pela atmosfera da Terra) e certas características do detetor do espectrógrafo, que induzem um aparente desvio de velocidade radial.

Estes efeitos podem criar falsos sinais de velocidade radial, influenciando estudos de asterossismologia (área que estuda a estrutura interna das estrelas através da análise das suas oscilações) e em estudos de trânsitos e a caracterização atmosférica via espectroscopia de transmissão. Compreender e corrigir estes vieses desempenhará um papel crucial na utilização de dados da geração atual e futura de espectrógrafos.

Na sua tese, o jovem investigador aponta ainda caminho para ultrapassar uma limitação fundamental do método atual de comparação com templates: a ideia de que o modelo da estrela não muda com o tempo.

O investigador mostra ainda que é possível ajustar em simultâneo o espectro da estrela, a absorção da atmosfera terrestre e a velocidade radial. Uma descoberta que abre a porta a detetar sinais planetários diretamente no espectro, sem depender de modelos fixos, e a lidar melhor com a variabilidade real da estrela.

Sobre o Prémio MERAC

Prémio MERAC para melhor tese de doutoramento reconhece o trabalho de excelência desenvolvido por jovens investigadores. É atribuído pela Sociedade Europeia de Astronomia, uma das principais organizações científicas da área na Europa. Em cada edição, só existem três vencedores nas categorias: Novas TecnologiasAstrofísica teórica e Astrofísica observacional.

Os vencedores são convidados a dar palestras plenárias em conferências europeias de prestígio, o que aumenta muito a visibilidade da investigação.

Sobre André Silva

Desde 2024, André Silva é investigador de pós‑doutoramento no IA e docente convidado na FCUP. A sua investigação centra‑se na extração de velocidades radiais de alta precisão e na identificação de vieses sistemáticos presentes neste processo.

Contribuiu também para o desenvolvimento do software de observação e controlo do PoET, um telescópio solar construído em Portugal que será ligado ao espectrógrafo ESPRESSO.

Neste projeto, André Silva é o colíder do grupo de trabalho de velocidades radiais (WG1), que tem como objetivo caracterizar e modelar o impacto dos sinais estelares em medidas de velocidades radiais.

Por Ricardo Reis/IA e Renata Silva / FCUP